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Mensagem por CChris em Dom 15 Mar 2015, 10:45

O calor do dia mistura-se com o frio da noite neste final de tarde de Março. Os dias estão cada vez maiores e cada vez existe mais tempo para estar na rua, pelo menos, em suposta segurança, sob a vigilância da luz. A escuridão demora cada vez mais a chegar às terras de Afonso Henriques, terras de Portugal.

Em cima de um terraço tipicamente lisboeta e com a imagem do sol por trás, temos Diogo Lourenço sentado no parapeito da varanda. O lutador da UWL está agasalhado, preparado para a noite que está por vir, dizendo assim adeus ao dia que acaba sob a forma de um por do sol da luz do fogo.

Diogo Lourenço: Dia 25 de Abril de 1974 foi o dia em que Portugal mudou, para sempre. Foi o dia em que a noite finalmente acabou e o sol voltou a brilhar neste pequeno paraíso à beira do mar. Cravos foram lançados ao ar e cantaram-se músicas de liberdade e alegria em todas as ruas do país. “Somos livres”, gritaram milhões de pessoas em todo o continente e ilhas, festejando dias sem fim a queda da ditadura…

Diogo Lourenço tira de dentro do seu casaco negro, um cravo e começa a aprecia-lo enquanto o roda gentilmente sobre os seus dedos.


Diogo: 41 anos depois… estamos mais presos do que no dia anterior à revolução. 41 anos depois, estamos presos… não pela PIDE, não pela Troika ou pelo FMI, mas sim, presos por nós próprios. 41 anos depois, o povo festeja o acontecimento que mudou a historia, mas não mudou o dia-a-dia do cidadão comum.

O lutador de Tomar esmaga a flor do cravo com a sua mão, retirando as pétalas do resto da planta e jogando o corpo, agora nu e depenado, desta, fora.

Diogo: Mas o cidadão comum pouco se importa com isso. Para ele o que importa é festejar todos os anos algo que, a única coisa que realmente prevaleceu, foi a musica que se cantou nesse dia. Festejar é que é bom, festejar é que o povo gosta. Por isso, dia 25 de Abril de 2015, vamos festejar a ignorância e hipocrisia de um povo com um dos maiores eventos de Wrestling que este país já viu. No dia 25 de Abril teremos o Independência, evento da VLL.

Lourenço agarra numa das pétalas que tinha na mão e larga-a, com a outra mão, no ar. O vento transporta a pétala para outros lugares, para outras dimensões, para outros destinos que não o dos portugueses.

Diogo: Como atração principal temos um combate entre… dois ingleses… No dia em que celebramos a Revolução e a Liberdade do povo português, temos no combate principal da noite dois estrangeiros…

Lourenço liberta outra pétala, fazendo-a voar noutra direção qualquer.

Diogo: Num outro combate, nessa mesma noite, temos Diogo Lourenço contra Gabriel Martins… dois excelentes lutadores que chegaram ao topo da VLL no tempo em que esta foi viva. Dois excelentes lutadores que carregaram a companhia às costas quando esta mais precisou, mas estes dois lutadores são regalados para o mid-card da noite, enquanto temos no Main Event uma pessoa que mais prejuízo e processos deu à companhia do que alegrias e lucro, nomeadamente, Kevin Gunn, e outra pessoa que nunca sequer participou na companhia.

Diogo ri, frustradamente, enquanto vai libertando algumas pétalas, uma a uma, para o ar.

Diogo: Os Ingleses, que nos humilharam com o seu Ultimato à um século atrás, humilham-nos novamente um século depois, sendo o Main Event da festa mais “portuguesa” do ano. De quem é a culpa? Deles não é de certeza, eles limitam-se a receber os cheques. Minha? Talvez, por não tomar uma ação contra isto tudo. Mas a culpa é certamente de quem diz mandar na VLL, que toma estas péssimas decisões. Mas acertou numa coisa, vá lá, ao menos em uma. Acertou em marcar-me um combate para essa noite contra o Gabriel Martins.

Diogo liberta agora todas as pétalas que tinha na mão, criando uma dança entre elas ao sabor do vento. Depressa elas se dispersam. Umas caiem no chão da varanda lisboeta, outras voam para longe. Lourenço desce do parapeito para o chão de tijolo da varanda, dando uns passos pela varando, mudando o angulo do por do sol para a ascensão da lua.

Diogo: Querem ser sinceros? Vamos ser sinceros… vocês todos querem ver um grande combate de wrestling, tudo aquilo que a modalidade tem de melhor para oferecer, no dia 25 de Abril. Vocês não precisam de esperar até ao Main Event do espetáculo, basta verem o meu combate com o Gabriel Martins para perceber que… o que é nacional é que é bom e não existe nada melhor do que o Original sabor português. Gabriel, não penses que eu te estou a menosprezar e a falar pouco de ti, mas sei que tu te sentes da mesma forma que eu…

Diogo Lourenço desloca-se agora até metade da varando, ficando entre o meio dos dois cenários. De um lado, o dia, o por do sol, a luz e o calor. Do outro lado, a noite, a ascensão da lua, a escuridão e o frio. Diogo fecha os olhos e abre os braços, respirando fundo. Num movimento seco, os braços caiem ao longo do corpo e este volta a abrir os olhos, olhando para o centro da câmara.


Diogo: Dia 25 de Abril, o povo português vai ganhar a verdadeira Independência quando os portugueses derem o melhor combate da noite e humilharem os ingleses que se dizem material de elite. Nick, Kevin, preparem-se… i hope you suffer!

A imagem desvanece.
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Re: Original

Mensagem por CChris em Qui 16 Abr 2015, 03:19

A intimidade do ser humano é algo sagrado para alguns, completamente banal para outros, mas é nessa intimidade que conseguimos encontrar a mais pura forma de todos. Seja nus e crus, ou seja a maquilhar o nosso corpo e cara com cosméticos, existe um local em que o ser humano consegue ser, na sua totalidade, ele mesmo. Esse local… é a sua casa de banho. Não, não comecem a rir ou a pensar que estou a brincar, mas a casa de banho é o local onde o ser humano se expõe mais ao mundo, à realidade. Deixamos uma parte de nós na casa de banho, seja a “lavar” a nossa alma, ou a “defecar” os pecados do corpo. A casa de banho e o derradeiro local de purificação do Homem, onde este exibe todos os seus sentimentos e emoções sem ter preocupações de vistas alheias. O que único que nos observa, alem de nós próprios, é supremo Juiz, que tudo vê, tudo ouve, tudo cheira… A intimidade do Homem é o seu bem mais precioso, e é por isso que viola-la, pode destruir qualquer um.
 
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Algures durante os últimos dias…
  
Diogo Lourenço chega a casa, depois de mais um dia de treino. Durante as ultimas semanas, o “Daredevil” do Wrestling Português tem treinado sem cessar, para o combate que vai ter no próximo evento da Vanguarda da Luta Livre, o primeiro desde que esta voltou ao ativo, o Independência.
 
Lourenço joga a sua mala com todo o seu equipamento de treino para cima do seu sofá e rapidamente dirige-se ao quarto de banho, fechando a porta assim que entra neste. Diogo tira todos os objetos que tinha no bolso das suas calças. A sua carteira, o seu tabaco, o seu isqueiro, as suas chaves de casa, o seu telemóvel e uns papéis amarrotados que estavam por ali. Mete-os todos em cima de um móvel que ali estava e depressa retira toda a sua roupa, metendo esta para lavar. Diogo dirigia-se para a banheira, mas hesita. Em vez disso, decide sentar-se na sanita. Puxando o seu maço de tabaco e do seu telemóvel, Diogo retira um cigarro e acende-o, enquanto começa a marcar um número que rapidamente aparece no visor do aparelho electrónico como sendo de Alexandra Valente. O lutador de Tomar espera que esta atenda o telemóvel, completamente nu, sentado na sanita e a fumar um cigarro.
 
Al (no outro lado da linha, passados alguns segundos): Estou sim?
 
Diogo: Al, sou eu.
 
Al (audivelmente irritada): Finalmente tenho noticias tuas! Onde raio tens andado? Sabes o que é que eu já passei por causa tua Diogo?! Sabes?!
 
Diogo (voltando a encostar o telemóvel ao ouvido, depois de o ter desencostado por causa dos gritos de Al): Calma, Alexandra, calma. Eu tirei um período sabático para me preparar para o combate com o Martins. Nada como passar umas semanas numa quinta, isolada, algures no distrito da Guarda, a treinar o corpo e a mente, para me preparar para o Martins.
 
Al (ainda irritada): Diogo, não me venhas com essas tretas e não te armes em Gante! Tu sabes os problemas que nos causaste? Tu lembraste-te sequer que tinhas que aparecer no Colombo para promover o evento da VLL como parte do teu contrato? Tu violaste uma das clausulas do teu contrato Diogo, eles podem processar-nos e despedir-nos num piscar de o…
 
Diogo (interrompendo): Tem calma Al. Eles não vão fazer isso.
 
Al: Calma? Como podes-me pedir calma? Andes-te a fumar erva outra vez?
 
Diogo: Não. O que eu estou a dizer é para relaxares. Eles não me vão despedir ou processar. O meu combate com o Martins está a ser uma das maiores atrações do evento deles. Tanto que eles puseram a estipulação de quem vencer o combate, tornar-se-á o novo candidato ao título. Imagino que eu ganho este combate contra o Martins… eu torno-me no candidato principal contra um dos ingleses. Por muito que o publico goste do Gunn e do Lawrence, eles querem um português a lutar pelo titulo ou, até mesmo, a ganha-lo. Eles sabem o quão dinheiro este combate vai dar à VLL, e tu e eu sabemos o que realmente move estas pessoas, qual é a sua verdadeira “paixão”. Não é o Wrestling, Al… é o dinheiro.
 
Lourenço dá uma passa no seu cigarro, depois de se ter esquecido que o tinha acendido. Como as cinzas já se estavam acumulando na ponta deste, este desvia-se um pouco e consegue deitar estas para dentro da sanita e, rapidamente, voltar ao “serviço”. Diogo expele o fumo pelo nariz ao mesmo tempo que volta a falar. Este sobe até ao tecto da casa de banho, procurando uma saída do compartimento do apartamento de Diogo, mas não encontrando. Este vai ficar por aqui, até que Lourenço decida abrir a porta.
 
Diogo: Por isso, eles no máximo vão dar-me algum tipo de multa. E com isso, eu posso bem. O dinheiro não me importa, Al. Desde que eu tenha o suficiente para sustentar-me e aos meus vícios, estou bem. O que realmente importa aqui, é o objectivo final. O derradeiro propósito pelo qual eu voltei à VLL… ganhar aquilo que nunca ganhei… o Título Supremo!
 
Al: Ok, Diogo… isso é tudo muito bonito mas, antes disso, vamos lá descer à terra.
 
Diogo dá mais uma passa no cigarro. Ele agora encosta-se para a frente, apoiando os cotovelos nas suas pernas e acaricia a sua barba, que estava por desfazer, com a mão que segurava o cigarro, visto que a outra estava a segurar o telemóvel.
 
Al: Primeiro e, antes de tudo, tens que ganhar ao Martins. Já pensas-te como é que o vais fazer?
 
Diogo (deixando a sua postura mais calma de lado e ficando agora mais sério): Sinceramente, não. Eu já percebi uma coisa, se quero vencer ao Gabriel, tenho que primeiro, supera-lo psicologicamente e só depois, fisicamente e tecnicamente. Um homem sábio uma vez disse-me… as lutas não são ganhas no ringue. Os murros e os pontapés, são apenas adereços, entretenimento para o público… a derradeira batalha acontece dentro das cabeças dos dois lutadores. Se eu conseguir garantir que ganho a luta na cabeça do Gabriel antes mesmo de o combate começar, as chances de ganhar a luta física aumentam para cem por cento.
 
Al: Ok… então, o que sugeres?
 
Diogo (depois de uma pequena pausa para dar uma passa no cigarro): Até agora, nada. Mas temos que pensar e agir rápido. O combate é dentro de dez dias e até lá temos que pensar em alguma coisa… por isso, começa a informar-te sobre a vida do Gabriel. Usa os teus contatos e descobre tudo aquilo que poderes sobre aquele gajo… eu quero saber tudo. A que horas ele sai de casa, quantas vezes ele come por dia, se tem cão ou gato, tudo! Agora se me desculpas, já terminei o “serviço”, por isso, vou dar banho.
 
Al: Serviço? Que serviço?
 
Diogo levanta-se da sanita, dá uma ultima passa no cigarro, deita-o para dentro desta e despeja a água . Ele deixa o telemóvel em cima do móvel da casa de banho, ainda em chamada com Alexandra pois este não se deu ao trabalho de desligar. Diogo entra na banheira e começa a tomar o seu banho, deixando Al a falar sozinha.
 

Al (indignada): Diogo? Isso foi o barulho de tu a despejares a água? Tu estavas a cagar Diogo!? Diogo!
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