Psico-análise

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Psico-análise

Mensagem por CChris em Ter 30 Set 2014, 09:14

A porta de um escritório abre-se. O escritório era muito bem arranjado, mas ao mesmo tempo, simples. Algumas prateleiras cheias de livros, indo do romance ao modernismo, passando pela filosofia e psicologia, livros de todas as matérias e mais algumas. Nas paredes, havia dois quadros. Um, muito provavelmente uma réplica, do único quadro deixado do pintor modernista português, Santa Rita Pintor. O outro era a pintura de uma paisagem, um retrato da realidade vista pelos olhos do pintor de uns montes e colinas. Na sala, não havia muitos móveis. Uma secretária, com alguns papéis em cima, uma cadeira de escritório em cabedal, e duas cadeiras de baloiço em madeira, colocadas no meio da sala. Para música ambiente, estava a tocar, em vinil, musica Blues antiga, mais precisamente, Son House.
                                                              
Sentado numa das cadeiras, estava um senhor de possivelmente 60 anos, de barbas brancas, um pouco obeso, com uma boina na cabeça e uns suspensórios para lhe segurar as calças. Vestido, tinha uma camisa azul escura que se metia por dentro das calças, já referenciadas. O mesmo estava sentado numa das cadeiras de madeira, a baloiçar, enquanto tinha um cachimbo de tabaco na boca, fumando-o enquanto tirava algumas notas num bloco negro.
 
Assistente (batendo a porta e entrando): Doutor Henriques, o seu cliente chegou.
 
Dr. Henriques: Manda-o entrar. Obrigado Natércia.
 
O tal cliente de Dr. Henriques entra no consultório deste. Era Diogo Lourenço, o lutador da Vanguarda da Luta Livre. O mesmo entra, com um sorriso na cara, algo que não se costuma ver muito frequentemente no lutador de Tomar.
 
Diogo: Boas tardes, Dr. Henriques.
 
Dr. Henriques: Diogo, acho que já nos conhecemos bem demais para me tratares por doutor. Afonso, se faz favor.
 
Diogo: Como quiseres. Alias, este a vontade todo apenas facilita as coisas.
 
Afonso: Até parece que o à vontade é de agora.
 
Diogo senta-se na outra cadeira de madeira, que estava mesmo em frente do sítio onde Afonso Henriques estava sentado. Diogo baloiçava na cadeira, enquanto que tirava um cigarro do bolso, pedindo autorização ao Doutor para acender este. Uma vez que Afonso também estava a fumar, este concede autorização a Diogo e este acende o cigarro, dando duas passas e voltando a conversa com Henriques.
 
Diogo: Sim, já lá vai um ano e pouco desde que nos conhecemos. Nunca vim muito ao teu consultório. Eu apenas marcava as consultas de psicólogo do Gante contigo. Mais nada.
 
Afonso: É verdade, o Gante… como é que o Jorge vai, mesmo?
 
Diogo: Não sei. Não estabeleço contacto com ele à meses. Alias, aposto que o Afonso sabe mais do que eu.
 
Afonso: Por acaso, soube que ele ia publicar um livro nas próximas semanas. Ele sempre teve um poema enterrado dentro de si. Aquela alma atormentada tinha que ser libertada, se tiver que ser através da escrita, que o seja. Se tiver que ser a afogar-se nas suas drogas e na sua bebida, que o seja. Ele deixou de me vir consultar já faz uns três ou quatro meses.
 
Diogo: Que bom para ele, que se enterre em pain-killers e uísque, que assim é que a sua vida faz sentido! Mas bom, não estou aqui para falar do Gantusco.
 
Afonso: Até ai, sei eu. Estás com algum problema emocional? Eu vi o teu ultimo vídeo, Diogo. Cortares-te com um vidro, sacrificares animais e beberes o sangue deles, não achas que estás a ir um pouco longe demais?
 
Diogo: Eu? Nem por isso. Não pense que eu tenho algum tipo de distúrbio mental, apenas fui inspirado a fazer esse tipo de coisas.
 
Afonso: Inspirado? Por quem?
 
Diogo levanta-se da cadeira, passeando agora um pouco pelo seu escritório. O lutador de tomar começa a pesquisar por entre os livros do Doutro Afonso Henriques, enquanto que fumava o seu cigarro. Apos algum tempo, e sem nunca responder a pergunta feita por Afonso, Diogo retira um livro de uma das estantes, volta para a sua cadeira e joga o livro para cima do colo de Henriques.
 
Diogo: Por esse homem.
 
O livro era um dos muitos livros de contos de horror do escritor americano Edgar Allan Poe.
 
Afonso: Poe. O grande mestre do horror e suspense. Leste muito dele?
 
Diogo: A minha infância foi basicamente dividida por três coisas: Drogas, Wrestling e Poe. As drogas, já as larguei. Principalmente o álcool. Depois de saber do que é que o meu tio morreu, nunca mais me atrevo a pegar numa pinga de álcool, e condeno quem o faça! O wrestling, é o que eu faço para viver. Alias, para sobreviver. Já estive mais enamorado pela luta-livre, agora, faço-o apenas para ganhar o “pão nosso de cada dia”. Poe… Poe é e será sempre uma das minhas grandes paixões. Muitas foram as noites que passei em branco a ler os contos geniais deste senhor.
 
Afonso: Pois, já percebi de onde veio esse teu sadismo todo. Mas, já que falas-te nesse assunto, como é que tens estado a lidar com o facto de teres descoberto que o teu tio morreu de cancro no fígado, por causa das enormes quantidades de bebida que ele consumia?
 
Diogo apenas olha para Afonso. O lutador da Vanguarda da Luta Livre acaba de fumar o seu cigarro e Afonso passa-lhe um cinceiro que estava à sua beira. Diogo apaga o cigarro, coloca o cinzeiro ao pé de si, caso decida fumar outro cigarro, e reflecte uns segundos sobre a sua resposta.
 
Diogo: Sabe, Afonso, durante um ano, durante um ano inteiro, eu pensei que  o meu tio tinha morrido de ataque cardíaco, devido a idade. Não que ele fosse velho, mas eu tinha perfeita noção que ele não levava um estilo de vida saudável. Eu sabia que ele bebia. Eu sabia que ele fumava, às escondidas da minha tia, mas sabia. Durante um ano inteiro, tentaram esconder de mim o facto de ele ter morrido de cancro do fígado. Foi preciso eu encontrar a porra de uns papéis do médico a dizerem o que ele realmente tinha.
 
Afonso: E, deixa-me adivinhar, descarregas-te na tua tia.
 
Diogo: Sim. Coitada… apenas me queria proteger, mas acabou por levar comigo. Escondeu-me aquele facto durante um ano. Dizia que “não me queria distrair do wrestling ainda mais do que já estava por causa da morte do meu tio”. Tretas, é o que eu lhe chamo. Ela não tinha o direito!
 
Afonso: E essas coisas todas, levaram à tua radical mudança de atitude?
 
Diogo: Sim. Eu passei a ver o mundo de uma maneira totalmente diferente, Afonso. Eu não sei até que ponto, tudo o que eu acredito é mentira. Se a minha própria tia me mente sobre a morte do meu tio, quem sabe se o mundo não me mente sobre tudo o resto?
 
Afonso: É um ponto válido. Os nossos sentidos costumam enganar-nos com frequência. Foi por isso que Descartes ignorou todos os conhecimentos do sentidos e tentou formular regras apenas utilizando a razão.
 
Diogo: E isso serviu de alguma coisa? Ele chegou a brilhante conclusão de que existe um Deus perfeito que age como exemplo para os humanos… a sério? Esse é o ponto onde o homem consegue utilizar usando a razão? Alias, neste mundo sujo e corrupto, de nada serve a razão. Os homens hoje em dia são egoístas. Famintos de Dinheiro e Poder.
 
Afonso: Então, o que tu sugeres?
 
Diogo: Eu sugiro assustar as pessoas. O Medo é o grande ponto fraco da humanidade. Se fores a ver, todas as grandes ditaduras foram com base na implementação do Medo nas pessoas. Os jogos psicológicos podem matar um ser vivo, mas, mantendo o seu coração a trabalhar.
 
Afonso: Morte cerebral?
 
Diogo: Não, morte espiritual. O ser humano colapsa sobre si próprio quando os níveis de medo são acima do que aqueles que ele próprio consegue aguentar. As minhas lutas começam antes de chegar ao ringue, antes mesmo de começar o show. Eu passo uma semana inteira a trabalhar, com jogos psicológicos, para que quando eu chegue ao ringue, à terça-feira, tenha uma vantagem sobre o inimigo.
Afonso: Acho curioso a forma como usas a palavra “inimigo” para descrever o teu oponente.
 
Diogo: Mas, Afonso, quem entra em ringue comigo para me defrontar é, de facto, meu inimigo. Ambos estamos ali com um objectivo em comum, ganhar o combate. Ambos queremos derrotar-nos um ao outro. E ambos iremos fazer qualquer coisa para o conseguir. Por isso, sim, os meus adversários em ringue são de facto meus inimigos.
 
Afonso reflecte um pouco sobre o que Diogo disse e, de seguida, aponta algumas coisas no seu bloco.
 
Diogo: Aponta o que quiseres aí. Não me vais diagnosticar nenhuma doença mental que eu possa ter, pois eu estou saudável psicologicamente.
 
Afonso: Diz o homem que gosta de matar animais e beber o seu sangue para aquele que tem um doutoramento em psicoanalise.
 
Diogo: Doutoramento… isso é apenas uma coisa que foi inventada para convencer as pessoas de que elas realmente valem alguma coisa, de que elas são inteligentes e que estão acima do cidadão comum.
 
Afonso: As palavras são tuas. Eu nunca disse que era superior a alguém. Essa tua mágoa interior que te faz odiar tudo, que te faz arranjares uma teoria alternativa para tudo, isso vai acabar por te prejudicar, Diogo. Nem tudo o que tu vês é uma mentira. Para ti, tudo é uma conspiração. Estás armado em David Icke, mas vais acabar por te dar mal.
 
Diogo: Eu não estou armado em nada. Estou bem ciente daquilo que falo. Tenho as minhas ideologias e apenas isso. Não gosto de engolir tudo aquilo que o governo nos tenta enfiar pela boca abaixo. Tento duvidar ao máximo das coisas para não voltar a ser enganado. Chama-me de “David Icke” o quanto quiseres, mas eu apenas não gosto que me enganem.
 
Afonso: Como quiseres. Mas agora voltando a outro assunto, tu ainda a bocadinho disseste que tinhas perdido o teu amor pelo wrestling?
 
Diogo: Mais ou menos. Eu continuo a amar lutar. É das coisas que me dá mais prazer. O facto de eu ser pago para poder provocar dor nos meus inimigos é extremamente satisfatório. Mas o facto de eu não ver todo o trabalho que eu fiz no ultimo ano, recompensado, não me satisfaz nada. Eu aposto que existem por ai mais cinquenta companhias que pagariam o meu preço em ouro para me terem a lutar lá, mas a Vanguarda não quer saber da qualidade dos lutadores, apenas das suas caras e se eles vendem ou não.
 
Afonso: Esse discurso, Diogo… há meses que te atendo aqui no meu consultório e há meses que oiço tu a dizeres isso. Que a culpa da tua falta de sucesso é sempre dos outros. Que os outros é que tem culpa do facto de ainda não teres ganho o titulo principal da companhia e os outros é que tem culpa se não ganhas combates. Já tens 19 anos Diogo, acho que está na altura de começares a tomar responsabilidade pelas tuas acções.
 
Diogo (um pouco enervado mas a conseguir conter-se): Afonso, tu não percebes. O balneário da Vanguarda é cheio de jogos políticos. Apenas aqueles que caem nas boas graças da direcção recebem os lugares de destaque. Apenas aqueles que lhes lambem as botas, é que chegam ao topo. Quem não o fizer, pode muito bem contentar-se com lugares de mid card.
 
Afonso: É assim Diogo, eu sou o teu psicólogo e não a pessoa com que tu despejas todas as tuas teorias da conspiração. Isso tu fazes lá com o Leviátes. Comigo, tu falas de como tu tens estado ultimamente e essas coisas, e eu, tento perceber se estás a ir num bom caminho ou não. O que se passa contigo, é que tu estás com indícios de uma pequena depressão devido ao choque da descoberta da verdadeira razão da morte do teu tio. É por isso que tu mudas-te radicalmente e que tudo  parece ser uma mentira para ti. É por isso que o teu comportamento tem sido, maioritariamente agressivo nos últimos tempos e é por isso que começas-te a repugnar todo o tipo de bebida alcoólica e todos aqueles que as bebem. Se tu quiseres ser ajudado, Diogo, tudo bem. Se não quiseres ser ajudado, eu não vou puder fazer mais nada por ti.
 
Diogo mantem a cabeça baixa durante alguns segundos. O mesmo reflecte sobre tudo o que Afonso disse. Diogo mantem-se calado e o silêncio é profundo no consultório de Henriques. Por fim, Diogo levanta a cabeça e olha directamente nos olhos de Afonso. Durante alguns segundos, os dois olham nos olhos um do outro, como que tentando intimidar um ao outro. Diogo, por fim, desiste e levanta-se da cadeira, saindo do escritório, batendo com a porta.
 
Afonso fica a olhar para os apontamentos que tem no caderno. O mesmo puxa do seu cachimbo e mais uma vez, o fuma.
 
Afonso: Espero bem que este miúdo volte. Tenho medo do que ele possa fazer sem ajuda profissional. Se ele não for acompanhado, ataques de raiva repentinos e outros agravantes podem aparecer no comportamento dele, com o passar do tempo. Mas pronto, vamos ver o que é que acontece…
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