Barata

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Barata

Mensagem por RedWrestler em Sex 29 Ago 2014, 00:59

Fuínha liga o carro e coloca o pé no acelerador. 10 minutos de viagem que não podiam custar mais. A espera era infinita. Os segundos eram horas na mente de Arsénio. Poder encarar o seu maior adversário frente a frente sem ninguém a envolver-se era o seu desejo. Neste momento essa ilusão estava prestes a tornar-se uma realidade, à medida que o ex-membro dos DeLuxe acaba de estacionar o seu carro no parque de estacionamento do shopping. Enquanto subia pela s escadas rolantes, o lutador pensava no que podia acontecer. Numa eventual cilada, chantagem, o pior possível.

Arsénio olha em redor, à procura da pessoa que o tinha atacado há 5 dias atrás. Após um início de busca não muito bem sucedido, uma memória é recordada pelo ex-Parceiro de Guerra. Fuínha recorda-se do local onde se tinha encontrado pela primeira vez com o homem naquele exato shopping. Pequena correria que acaba com Arsénio a deparar-se olhos nos homens com Nuno Barata. O mais conhecido agiota de lutas de rua em Lisboa. Barata, que se encontrava vestido elegantemente, tinha excesso de peso e uma idade à volta dos quarenta e poucos anos. Este era careca, tinha barba cerrada e óculos. A tensão entre os dois era óbvia. O agiota parecia estar mais confortável quanto a isso. Atrás deste, de pé, encontrava-se um homem alto, espadaúdo, de raça negra, com um ar sério.

Barata: (Sentado numa cadeira; apontando para outra localizada à sua frente) Senta-te.

O “Verdadeiro Professor” acaba por se sentar. Queria ter uma conversa com o seu antigo “agente”.

AF: (Olhando directamente para Barata) O que queres de mim, cabrão? Vi a tua mensagem.

B: (Descontraído) Calma, Arsénio. Não comeces já com essas coisas. Primeiro: o Lucas sabe que vieste?

AF: Não. Não lhe disse nada.

O agiota termina o seu café.

AF: Porque é que regressaste? Não achas que já me lixaste a vida o suficiente?

B: (Acenando negativamente com a cabeça) Arsénio, Arsénio…

Fuínha cerra o punho. A fúria que sentia para com Barata era evidente, tal como o seu esforço para não se exaltar.

B: (Rindo-se) Sempre foste muito espertinho, mas esse teu lado impulsivo é que me encantava. Era assim que ganhavas combates.

AF: Não achas que já ganhaste o suficiente às minhas custas? Não te devia ter mandado para o hospital… devia ter me livrado de ti de uma vez por todas.

B: Ditaste a tua sentença quando fizeste isso. Arsénio Fuínha morreu nesse dia. Estes aninhos que tiveste depois disso… considera-os uma prenda minha. Tiveste muita sorte rapaz. Mas essa sorte acabou.

Arsénio não se sente ameaçado.

AF: (Apontando o indicador para Nuno) Não passas de um insecto nojento. De uma “barata” que se pisa facilmente. Não me intimidas minimamente.

B: (Exaltando-se um pouco) Mais respeito meu menino! Eu moldei-te! Não eras nada sem mim! Arsénio Fuínha só existe por minha causa. Eras um merdas antes de te esticar a minha dócil e gentil mão. Um adolescente bebedolas que o máximo que conseguia fazer era roubar umas maçãs na mercearia.

AF: Basta!

Fuínha dá um soco na mesa e levanta-se. Bastantes pessoas situadas em redor ao local olham para este. O lutador volta a sentar-se, tentando que não o reconhecessem.

AF: O que queres de mim?! Ah?! Diz de uma vez por todas!

B: O que quero? Quero que sintas o que eu senti. A humilhação... tudo. Mas mais importante que isso: que me pagues o que deves.

AF: (limpando o suor) Não te devo nada. Paguei cada cêntimo que te devia, mas tu não soubeste parar. Merecias uma lição e eu dei-ta!

Barata coça a sua barba.

B: Fiz de ti um homem! No primeiro dia que te vi disse-te para olhares para o céu porque ias alcançá-lo e sabes que mais? Chegaste lá! Graças a mim.

AF: (Interrompendo) Aí é que te enganas. Cheguei lá porque trabalhei para isso! Porque não me limitei a ser o teu capanga e a fazer os teus serviços sujos. Quis ser melhor que isso.

Fuínha levanta-se, preparado para ir embora. Barata ri-se e ajeita o seu casaco.

B: (Sorrindo, com controlo da situação) Aonde pensas que vais? Ainda temos muito com que conversar rapazito.

O ex-Parceiro de Guerra estava farto de Barata. Contudo, sabia que abandonar agora o local podia ter repercussões graves a curto prazos. Como tal, reticentemente, o lutador acaba por se sentar.

B: Afinal não queres saber o que quero de ti?

Arsénio não responde, mantendo um olhar fixo e intenso em Barata.

B: Primeiro, como homem de negócios que sou, preciso que me pagues o que deves.

AF: Não vais receber nem um cêntimo meu.

Barata solta uma gargalhada.

B: Pois... se fosse a ti não apostava nisso. Pelo menos os teus pais agradeciam. Que tragédia que seria se lhes acontecesse alguma coisa…

Barata sorri. Fuínha, instantaneamente, agarra a gravata do agiota. O homem que acompanhava o agiota interfere de imediato afastando o lutador. A respiração do ex-membro dos DeLuxe era audível para qualquer um que estivesse perto e o seu rosto adquiria aos poucos a cor avermelhada. A raiva do lutador estava no auge.

B: (Tranquilo, apesar de tudo) Take it easy, Coco! E tu, Arsénio? Queres um escândalo público é? Queres repartir o tempo de antena do telejornal com os do Espírito Santo?

Fuínha hesita durante uns segundos, pensando no que Barata lhe tinha dito.

B: Já agora: Fuínha este é o Coco. Coco, este é o Fuínha. Coco, faz-me um favor e chama-me a empregada. Aqui o meu amigo vai-me pagar a conta e começar a saldar as suas dividas.

Arsénio acena negativamente com a cabeça. Jamais iria obedecer à ordem do agiota. Enquanto isso, Coco sinaliza à empregada para que esta se dirige ao local com a conta.

AF: (Acenando negativamente com a cabeça) Isso nunca irá acontecer.

B: (Confiante) Não só vai isso como vai a minha segunda condição.

AF: (Surpreso) Segunda condição?

B: Quando te foste embora, há sete anos, eras o meu maior cliente. Entretanto, descobri uma pessoa ainda mais dotada que tu. Se conseguiste entrar na VLL, não vejo o motivo para ele não entrar.

AF: (Não querendo acreditar) Tu queres que ponha um dos teus lutadores na VLL?

B: Continuas perspicaz… É isso mesmo que irás fazer.

O agiota executa um sinal com as mãos e de repente um homem, na casa dos 20, de raça negra dirige-se até ao local. Este tinha estado sentado no balcão do café durante toda a conversa. Sem proferir uma única palavra, o jovem senta-se.

B: (Sorrindo) Arsénio: apresento-te Meta Baldé. Meta, este é o Arsénio.

Fuínha fica petrificado durante alguns instantes. Não queria acreditar no que se passava.

B: (Incentivando) Vá lá, cumprimentem-se. Vão ser colegas de trabalho dentro de muito em breve.

Meta toma a iniciativa e estende a mão ao “Verdadeiro Professor”. Este acaba por aceitar e dar o aperto de mão. Ambos olham-se mutuamente de forma intensa. O aperto é duradouro, com ambos os lutadores a colocarem o máximo de pressão e força.

B: Calma, rapazes, relax.

Os dois lutadores largam o aperto.

AF: Porque raio queres que seja eu a meter este gajo na VLL!?

B: O nome Barata já é mais badalado que os sinos da igreja da tua terra. Já passou muito tempo desde a última vez que consegui colocar um dos meus lutadores numa companhia de wrestling. Ainda procurei abordar a antiga direção, pedi-lhes para observarem melhor o Meta Baldé, mas não obtive qualquer resposta. Associaram-no a mim e borraram-se logo. Por isso, Fuínha, serás a minha via verde.

AF: (Preocupado) Essa merda é impossível, Barata. Não tenho poder suficiente para colocar ninguém na VLL.

B: Lá te arranjarás com certeza. Aposto que te dás às mil maravilhas com esta nova gerência dirigida pelo Salazar. Vocês têm muito em comum.

A empregada do café dirige-se até ao local com a conta. O valor desta era um euro e meio. De imediato Barata recoloca o seu olhar no seu antigo cliente.

B: Muito obrigado, aqui o meu amigo paga a conta.

Arsénio olha sério para Barata. Este último estava muito bem humorado, o que ainda irritava mais o lutador. Fuínha, passado poucos segundos, acaba por retirar a carteira do seu bolso direito das calças.

AF: (Entregando o dinheiro à empregada) Aqui tem.

B: (Levantando-se) Bem, Arsénio, não te esqueças do falado. Manda cumprimentos meus à família. Vemo-nos por aí.

Fuínha nem tenta responder. Barata, acompanhado por Coco, e Meta abandonam o local. O agiota mostrava contentamento e o seu sorriso era sinal de isso. O lutador de Alfama permanece sentado com a mão direita no cabelo. A raiva dava lugar a um ar pensativo. O “Verdadeiro Professor” tinha uma árdua tarefa em mãos. Uma tarefa que terá que realizar sozinho.
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